
Flora, a vilã de “A Favorita”, novela da Rede Globo, é a melhor personagem da trama e também já criada por um autor na televisão brasileira. Se a personagem de Claudia Raia traz o ranço das boazinhas tolas e sempre no lugar comum da interpretação, Patricia Pillar ganhou um presente: uma vilã digna de grandes obras-primas do cinema mundial. Sem exagero!
Ontem, a telenovela apresentou uma cena espetacular e memorável: os três vilões reunidos conversam sobre os álibes que usariam, caso fosse necessário, em uma investigação sobre a morte do médico, que, cenas antes, foi exterminado da trama por uma Flora psicopata - quase uma serial killer. A sequência se desenrolou ao redor de uma mesa de restaurante e garantiu um dos melhores diálogos e interpretações dos últimos anos. Quase perfeito!
Hoje a trama começou a se entrelaçar mais ainda. Finalmente o personagem de Giulia Gam começou a mostra a que veio e seu elo com a vilã Flora foi apresentado, deixando no ar um certo quê de que o que é da mau caráter está guardado, muito bem guardado. Quem viver (na trama), verá!

A Favorita: Patricia Pillar e Cláudia Raia
Já declarei que a trama de João Emmanuel Carneiro me fez voltar a assistir novelas. A Favorita é para mim um marco da telenovela brasileira, assim como foi Vale tudo, por exemplo, que para, ao meu ver, foi a última grande trama que tivemos na Globo - e na televisão do Brasil, também.
Deixando de lado o gay rico, perdido e afetadinho e o período semi-travesti do personagem de Cauã Reymond (até porque gay mesmo é a Alicinha- adoro!), e esquecendo também umas tramas secundárias, como a da Maria do Céu, de Debora Secco (que já foi a Sol), temos no ar uma senhora estória que cria o famoso gostinho do quero-mais que faz com que todas as noites meus olhos fiquem grudados na telinha, ou ponha para gravar e não perder um segundo.
Tenho a teoria de que, assim como o clube gay The Week fez com a educação musical de seu público (assunto para outro post e momento), também a Rede Globo emburreceu seus telespectadores e hoje prova uma dose do seu próprio veneno. Nestes quase 20 anos após a novela de Gilberto Braga, que inaugurou, no final dos anos 80, a clássica pergunta: quem é o culpado pela morte do vilão (ou, “Quem matou Odete Roitman?”), nada de fato, criativo e rico, foi produzido pela Rede Globo no que se refere a telenovelas - que agora passou seu modelo vencido para a Record, embora esta ainda se saia melhor que o mestre por conta de seu pé no trash, que, quem sabe um dia, vire cult - e resulta em números baixos da audiência para um trama tão interessante como ”A Favorita”.
A Favorita traz um esqueleto cinematográfico para a televisão. Tem um quê de Hitchcock, lembra um bom filme policial e um roteiro daqueles, cheio de reviravoltas, idas-e-vindas, mentiras que encobrem verdades que mascaram mentiras. Muitas portas numa mesma estória e um elenco que segura muito bem tudo isto.
A morte do personagem Marcelo é o estopim, mas não é somente ela que move a trama. A busca inicial é por quem matou o personagem: Donatella ou Flora? Mas não se encerra aí. E nem começa por aí, também. Ao contrário do que manda a tradição, Carneiro não disse ainda quem é a culpa. Para piorar (ou melhorar, depende do ponto de vista), põe as suspeitas num labirinto de sentimentos sem fim, enrola outros personagens soturnos na história e abre para o público uma série de possibilidades e viagens criativas - faz um público já desacostumado voltar a pensar, ou se esforçar, pelo menos.
Amanhã, terça-feira (5), João Emmanuel Carneiro (que já é a nova Janete Clair) põe no ar uma nova novela dentro da mesma trama e inaugura um jeito inédito de contar estórias na televisão brasileira - e olha que ele já fez bonito até aqui! -, pois nesta noite todos os telespectadores saberão (somente nós, os personagens da trama não) a verdade por trás da morte de Marcelo e quem é o verdadeiro culpado. Não me surpreenderia se fosse a Donatella (embora a tradição prove que quem é mais claramente suspeito, é menos culpado); e acharia interessante se a assassina fosse a Flora (como parece já ter sido antecipado por alguns jornais). Mas seja lá quem for o culpado, sinto que tem ainda muita água para correr sob esta ponte e, quem sabe, no final (eu torço muito por isto!), sejamos surpreendidos outra vez (como um murro no estômago) por um desfecho mais inteligente e criativo ainda. Quem sabe o assassino revelado na terça-feira e que somente nós (na vida real) ficaremos sabendo não seja alguém iludido por um crime que achou que cometeu (ou foi induzido a achar), mas que a verdade é outra?
Seria uma delicia que esta minha viagem acontecesse. Não que a trama com uma Flora ou Donatella como uma das assassinas não tenha já um quê de inovador.
A Minha favorita caminharia assim (meu momento autor):
Ficamos sabendo que a verdadeira assassina é a Flora.
Flora é revelada a assassina, mas nunca se sentiu como tal e buscou vingança, pois sendo ou não a culpada, ela acha que Donatella deve pagar.
Marcelo foi morto durante uma discussão entre os 3, ocasionado por uma série de sentimentos, entre os mais fortes, o ciúme. No meio da briga, alguém puxa uma arma (que mais tarde dizem pertencer ao morto) e dispara. Marcelo cai morto e Flora está neste momento segurando o revólver perante uma testemunha: Cilene, a manicure-dona-de puteiro, amiga de Donatella.
Na trama, tudo continua seu curso: Donatella vai presa após as armações da vilã (agora revelada para o público somente) Flora, mas com a ajuda de Zé “Biba” (digo, Bob) recupera sua credibilidade e prova para todos da novela que é inocente e foi vítima da assassina de Marcelo. Flora começa novamente sua descida ao inferno, desta vez sem poder contar nem com a ajuda da Irene, mãe do morto que sempre esteve ao seu lado.
Ao longo dos capítulos descobrimos que Silveirinha trocou os bebês no berçário e que Harlley é o filho desaparecido de Donatella com Marcelo; Silverinha também revela que Lara não é filha de Marcelo e sim de Dodi (isto pode ser tanto mais uma armação de Flora, como um equívoco da própria personagem, que se enganou com a gravidez, ou qualquer outra saída criativa); Silverinha também saberia mais do que disse até agora. Toda a verdade estaria em suas mãos. Com o tempo, ele começa a deixar escapar para os telespectadores que sabe bem mais do que todos na novela e aqui na vida real achavamos que sabia, como por exemplo, que havia mais alguém na cena do crime: o verdadeiro assassino.
E aí, na reta final, a dúvida toma conta da novela e caminhariamos para um desfecho com cara de “Vale Tudo”: quem é o verdadeiro assassino de Marcelo?
Silveirinha - poderia ser um dos suspeitos, mesmo sendo ele o dono da resposta. Poderia ter matado o Marcelo como parte de sua vingança para a Donatella, a mesma que o levou a raptar o filho da personagem;
Donatella - ela teria um caso com o pai de Marcelo, o Gonçalo, e foi descoberta. Marcelo teria brigado com ela e a abandonado, indo atrás de Flora. Ela vai atrás para se vingar. A quarta pessoa no local seria o Silverinha (que teria feito o inferno para detonar a relação de Marcelo e Donatella e a incentivado a matar o marido e pôr a culpa na Flora) escondido assistindo de camarote;
Irene - a mãe de Marcelo estaria sendo chantageada por Donatella que sabia da verdade: Marcelo não é filho de Gonçalo e sim do Copola. Aterrorizada, acreditando que Donatella foi atrás do filho para contar toda a verdade, Irene se arma e decide acabar de vez com a nora, mas chegando no local encontra um cenário de briga entre Marcelo, Flora e Donatella, então se esconde e aproveita-se de um momento para tentar atirar na nora, errando e atingindo o filho. Apavorada, sai correndo do local e guarda este segredo. Quando Flora sai da cadeia, vê nela a chance de pôr a culpa em Donatella e se vingar de tudo;
Dodi - teria armado todo o crime para se vingar de Flora por ter dito um filho com Marcelo. Se vingar também de Donatella que seria sua amante e do próprio Marcelo, que descobriu que ele andava roubando a empresa;
Gonçalo - este teria muitas razãos, que ao decorrer dos capítulos iriamos descobrindo. Ele teria tido um caso com a nora e Marcelo teria descoberto. Assim sendo, poderia ter se escondido no local do crime e se aproveitado do momento para matar Marcelo, ou, ainda, se associado a Donatella em um pacto para incriminar Flora pelo assassinato. Teria também o fato de Marcelo ter descoberto os roubos do pai na empresa e ameaçado denuncia-lo; outra hipótese seria Gonçalo ter descoberto que Marcelo não é seu filho e decidido acabar com a vida dele, já que o verdadeiro pai do personagem seria seu inimigo de anos, o Copola, o que também acarretaria na perda do controle acionário da empresa.
Enfim, muitas possibilidades, viagens e construções. Seja lá qual for o rumo que João Emmanuel Carneiro der a sua novela, espero que seja inteligente e não nos decepcione como fez Gilberto Braga, quando tinha uma série de bons assassinos para o final de “Vale Tudo”, mas preferiu selar a trama com o final menos criativo, dando a Cássia Kiss um momento para entrar para a História da Televisão Brasileira.
Há algo que cheira muito mal na novela das oito da Rede Globo de Televisão.
Sou um, digamos, fã da trama escrita pelo João Emmanuel Carneiro. Acredito que se trata de um texto digno de estar no altar das grandes histórias já produzidas pela casa e talvez a melhor depois de “Vale Tudo”. Apesar da grande maioria dos espectadores não estar muito afinada com “A Favorita”, o que está forçando o seu autor a antecipar muitos acontecimentos. Entretanto, a novela tem me causado aquele velho e bom desejo de ver logo o capitulo seguinte.
Na contramão disto, temos um fato estranho: a homossexualidade está sendo usada como uma arma antiquadra e polêmica na trama. Não falo nem da bichice sem sentido dos personagens de Iran Malfitano e Cauã Reymond, que de tão vazios, foram exterminados. O personagem de Malfitano sumiu com a desculpa de ter sido internado pelo pai e o Harley, do Cauã Reymond, voltou a atacar as mocinhas. Tudo na normalidade que agrada a rapaziada “familia” que dá Ibope. Mas vira e mexe aparece um novo “homossexual” na história: o político que cai em desgraça porque dizem que tem um filho com outro homem e agora é a vez de Walmor Chagas (foto) encarnar um médico que adora pegar michês no parque.
Não falo mal do fato de se abrir uma série de discussões em cima de perfis distintos de personagens, assim como acho válido o fato de vermos o assunto “homossexualidade” presente, mas me cheira mal sentir que só quando se quer denegrir, humilhar ou subjugar alguém é que se usa a “homossexualidade” em “A Favorita”. Não vi nada positivo ainda. Nada que nos dignifique ou tenha sentido. Sei que somos uma diversidade e também somos foco de toda uma gama enorme de preconceitos, mas que só isso ganhe espaço numa trama de tanta audiência, não me soa nada feliz. É como antigamente, quando negros só apareciam como motoristas, cozinheiros, assaltantes pé-de-chinelo (não confundam com o fato de ter um ator grandioso como o Milton Gonçalves fazendo um vilão magnífico como o que está no ar!) ou em novela sobre escravos.
Que tal um personagem gay assumido que é presidente da principal empresa de uma novela com conflitos em seu relacionamento? Ou um homosseuxal suspeito da morte de um outro personagem no centro da trama? Algo mais dentro de um contexto “normal”, longe do uso de nossa “condição” como arma. Uma arma que tanto pode atirar e matar um de nós, ou sair pela culatra.
E daqui a pouco, segundo boatos, Lillian Cabral verá sua personagem perdida entre o marido mau-caráter e uma amante do mesmo sexo. Já estou com medo das cenas e falas que teremos que presenciar.